Correr descalço?

Há uma polêmica na minha academia atualmente quanto ao uso ou não dos tênis para a corrida. Isso  porque um irreverente professor chegou para trabalhar com a sapatilha do momento, o five fingers,  divulgando que as ultimas pesquisas indicam que correr descalço seria o futuro do esporte. Será?

Quando você vai comprar um tenis, no que pensa primeiro? Moda? Cores? Estética? Conforto?  Diferenciais do produto? Na verdade, se você busca um tênis para corrida, o que você esta comprando  mesmo é:

  • proteção ao seu aparelho locomotor
  • otimização do rendimento da corrida com o uso do tênis e
  • estabilização do pé no solo

Mas será que um calçado esportivo é realmente capaz de nos proteger do impacto?


O tal professor fez referência a recentes matérias jornalísticas e ao livro do americano Christopher  McDougall "Nascido para correr", que divulgam os benefícios de correr descalço e os supostos  malefícios dos tênis caros. O jornalista garante que correr descalço evita lesões, ao contrário do  que a indústria de calçados faz crer, indicando estudos científicos importantes, treinadores de corrida e apresentou os tarahumaras, indígenas do norte do México que correm supermaratonas em tempo recorde usando sandálias de solas de pneu.

Mas o assunto já é estudado há mais tempo no meio científico. Nigg (1986) considerou atletas com e sem tênis durante a corrida, constatando que aqueles que não usaram tiveram diminuição de quase 5% do tempo do pico de choque, acelerando o tempo de impacto do pé no chão. E ainda aumento no pico de força desse choque. Outro estudo (Koml, 1987) achou os mesmos resultados, porém uma surpreendente pré-atividade dos músculos, o que mostra a brilhante adaptação do aparelho locomotor para o controle prévio do choque.

Robbins (1987) concluiu em seu estudo que após 4 meses de corridas descalços, a distancia dos arcos dos pés dos atletas diminuiu mostrando aumento do arco plantar. Isso porque com o uso do tênis a musculatura plantar fica mais flácida e, descalço, essa musculatura é forçada a trabalhar e enrijecer, causando maiores forças internas nos ossos dos arcos plantares.

Já se observou também como o solado interfere no movimento da pisada e em que medida o calçado determina qual parte do pé toca primeiro no solo. Estudos filmaram sujeitos correndo para indicar os que colocavam o calcanhar, meio pé e antepé primeiro. A maioria apoiava o calcanhar para absorver o choque sem desgastar o músculo tibial anterior, como ocorre no apoio do antepé. No entanto, ao correr no asfalto, devido a dureza, o padrão se altera. O atleta acaba por apoiar primeiro o antepé para proteger o calcanhar, usando do tibial para absorção do impacto. Mas esse músculo é pequeno e fadiga rapidamente, o que pode prejudicar o rendimento em corridas de longa duração.

Em janeiro de 2010, a respeitada revista científica Nature publicou um estudo que reforçou a tese de que os tênis de corrida com calcanhar reforçado favorecem a pisada de calcanhar. O antropólogo Daniel Lieberman, da Universidade Harvard, mediu as forças de impacto na corrida de adolescentes quenianos que nunca haviam corrido calçados. Eles pisavam o solo com o antepé mas, uma vez calçados com tênis com amortecimento, tendiam a bater os calcanhares no chão. Lieberman não afirma que os tênis favorecem as lesões, mas deixou claro que eles modificaram a técnica de corrida de adolescentes acostumados desde cedo a correr descalços.

Para os especialistas em lesões ortopédicas, é o hábito que faz a diferença na capacidade de correr sem se machucar, com ou sem tênis. Meu professor e coordenador do Laboratório de Biomecânica da USP Júlio Serrão afirma que “É basicamente da adaptação que depende a necessidade que teremos do calçado. O tênis não é o protagonista da proteção. Quem tem tempo para se adaptar pode se dar bem sem ele.”

Por fim, há vários artigos que mostram os "sem calçados" com baixa incidência de lesões. Porém não se deve retirar os tênis nem queimá-los em praça pública. Basta reconhecer sua real e adequada importância e as necessidades que ele pode atender. Os estudos indicam que:

  • o tênis é capaz de auxiliar o controle das cargas e não determinar o total controle, uma vez que quem faz essa função são os músculos e ossos;
  • o calçado pode ser amigo ou inimigo do pé, causando por vezes deformações e machucados
  • o tênis não possui superpoderes de isentar o impacto e melhorar o rendimento propulsivo, mesmo porque a propulsão da corrida se dá no antepé e as molas propulsivas estão no calcanhar.
  • o calçado teoricamente ajuda na correção da passada supinada ou pronada, mas não devido a construção da palmilha mais ou menos dura de um dos lados. O fator mais importante deve-se ao salto: o calcanhar deve ser mais elevado que o antepé, conforme vários estudos sugerem, pois o aumento na altura do calcanhar reduz a pronação do pé (Battes, 1978; Stacoff, 1983).
  • crescemos acostumados a pisar no chão com uma camada de borracha e tecido macio intermediando o impacto. Se quisermos correr sem tênis, teremos primeiro que nos acostumarmos a isso.

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