Medicina Artística

Tenho recebido algumas perguntas a respeito de minha pesquisa de mestrado. Em geral perguntam qual pode ser a diferença entre preparar o corpo de atores e treinar o corpo de qualquer outra pessoa? Será que há diferença entre o corpo de um ator e o corpo de um carteiro? Será que o ator tem as mesmas necessidades físicas de um atleta, que precisa de um treino específico e bem dirigido? Quais são as necessidades físicas dos atores que sugerem um estudo especial para seu preparo corporal?

Acredito que o papel do corpo do ator no Teatro Contemporâneo tem sido cada vez mais valorizado, não apenas por uma questão de estética, mas de expressividade. O palco atual requer do ator a mais intrínseca e essencial expressividade corporal, potencializado no uso de sua voz e movimentação. Como disse Grotowsky (1971) "ao ator implica a necessidade de conhecer e dominar seus recursos físicos”.

E observando uma aula de expressão corporal em escolas de teatro, noto o treino de saltos, flexões, rolamentos e movimentos bruscos que nem sempre são acompanhados de preparo prévio das microestruturas e tecidos biológicos (músculos, tendões e ligamentos) que promovem esses movimentos. Atores de diferentes faixas etárias e aptidões físicas buscam realizar o máximo que seus corpos permitem sem a orientação de um educador físico habilitado.

Para o público, o Teatro oferece diálogos dramáticos, músicas fascinantes, danças encantadoras... Mas por trás desse glamour, no entanto, os artistas se esforçam muito nos ensaios para que essa magia aconteça. E não aconteça apenas uma vez, mas que aconteça diversas vezes na semana, no mês, no ano... Para isso é preciso bom preparo físico, que propicie a continuidade do trabalho ao longo da temporada e que garanta a saúde dos artistas no palco.

Apesar de no Brasil esse estudo dirigido aos atores ser inédito, nos Estados Unidos e Reino Unido já acontece há mais de 30 anos. A preocupação com o treinamento e a saúde dos artistas tem tamanha relevância e importância que foi criada nos EUA em 1989 a chamada “Performing Arts Medicine Association”, uma organização de médicos, educadores físicos e pessoas envolvidas nas Artes Cênicas que se dedicam a melhorar a saúde dos artistas. Eles desenvolvem programas educacionais, debates para troca de conhecimentos interdisciplinares e pesquisas de prevenção e reabilitação de lesões comuns em artistas cênicos. Há inclusive o “Medical Problems of Performing Artists Journal” um periódico médico-científico especializado nas lesões das artes performáticas que pesquisa e publica artigos relacionados com disfunções musculoesqueléticas, lesões vocais, estresse psicológico e desordem fisiológica.

Segundo os fundadores dessas associações de “medicina artística”, eles tem contribuído com 3 importantes tópicos: 1) a tomada de consciência acerca dos problemas e riscos ocupacionais e do estilo de vida dos artistas, 2) a melhoria do diagnostico e tratamento de lesões, e 3) a realização de programas interdisciplinares voltados para preparação desses pacientes.

E para tanto, muitos estudos são feitos para se entender quais são e como acontecem as lesões dos artistas que os afastam dos palcos temporária ou definitivamente. Num desses estudos constatou-se que no elenco de Cats, por exemplo, quase 70% do elenco se machucou durante a temporada na Broadway. Noutro estudo, Evans (1996) entrevistou 313 atores dentre 23 produções teatrais, dos quais 55,5% queixaram-se de lesões, sendo elas mais comuns em membros inferiores. Um dado relevante foi que 62% dos entrevistados consideraram que essas lesões poderiam ser evitadas. Em sua conclusão o autor indica que por mais que algumas lesões sejam difíceis de serem evitadas, há medidas que podem diminuir a incidência, sendo seu estudo útil para educadores físicos e treinadores que trabalham nesse sentido.

Portanto, acredito que o trabalho dos atores no palco, seja de musicais ou do teatrão clássico de texto e improviso, deve ter o respaldo de um bom preparo físico. Ainda mais se considerarmos que o corpo do ator é a sua única e exclusiva ferramenta de trabalho. E que deve estar sempre pronta e afiada para o melhor trabalho possível.

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